China, o choque cultural

China, maior país da Ásia oriental com mais de um bilhão de habitantes. Se eu já pensava, sonhava, almejava morar aqui? Não. O continente asiático sempre foi um gigante desconhecido. Quando eu finalmente decidi embarcar nessa aventura, me dei conta que muito pouco sabia sobre a China e sua história. Vasculhando a memória percebi, com constrangimento, que a dita história mundial que estudamos no colégio (no Brasil), resume-se a história Européia. Apesar da civilização chinesa ser uma das mais antigas do mundo. Todas as minhas referências de literatura, arte, ciência, filosofia, moda, comportamento… tudo, mas tudo mesmo, faz parte da pequena esfera de influencia do mundo ocidental.

Enquanto morei nos EUA e na Itália conheci muitos estrangeiros do continente Asiático, mas que pouco lembram as pessoas que moram e foram criadas nessa parte do mundo.  Talvez, pela constante busca por aceitação em uma terra que não é a sua, os asiáticos que conheci eram bastante “ocidentalizados” e de hábitos muito semelhantes aos nossos. Aqui tudo é muito diferente, da maneira como se comportam a maneira como vestem. O choque cultural é inevitável. Várias vezes coloquei a cabeça no travesseiro e pensei: o que é que estou fazendo aqui? Dentre as maiores barreiras, o idioma vence disparado. Muitas vezes me sinto completamente perdida (em algumas ocasiões, literalmente). Aqui sou analfabeta, surda e muda. Pedir uma informação na rua é uma tarefa quase impossível. Todos os meus compromissos devem ser agendados com antecedência. Carrego sempre comigo o endereço por escrito, em caracteres chineses obviamente, dos lugares que preciso ir (incluindo o da minha casa, senão não consigo voltar). Manter um aplicativo de GPS no celular também ajuda muito. A primeira vez que eu peguei um ônibus aqui, passei o dia inteiro estudando o mapa e o itinerário. Para saber a parada que eu deveria descer, ia contando uma por uma (aqui os ônibus param em todas as estações igual ao metrô). Mesmo assim me perdi e tive que voltar para casa. Me restou tentar denovo outro dia.

Eu moro na cidade de Hefei, capital da província de Anhui. Essa não é uma cidade internacional (como Xangai e Pequim) e aqui estou realmente imersa na cultura e habito do povo chinês. A lista de como se comportar com os estrangeiros panfletada veementemente pelo governo chinês durante as olimpíadas de Pequim não chegou às cidades menores e de menos importância internacional. Hefei não recebeu uma cópia desse manual de “boa conduta” e a população mantém hábitos tipicamente chineses.

Aqui os estrangeiros são raridade e, em uma população estimada em 7 milhões de pessoas, somos celebridades. Quando cheguei achava muito estranho, mas depois de um tempo me acostumei. Pessoas me param na rua para tirar selfies ou tiram fotos de mim como se fossem paparazzi mesmo. Não dá para sair de casa sem maquiagem e desgrenhada, senão fica feia na foto. Vida de celebridade não é fácil.

A primeira impressão que tive ao chegar é que Hefei parece com o Brasil da década de 90. Motocicletas cortam o trânsito em qualquer direção (mão, contramão e até em cima das calçadas). Os mais desavisados devem ficar atentos ao caminhar pela cidade para evitar incidentes. Raros os que usam capacete e por incrível que pareça eles conseguem colocar até quatro pessoas em cima de uma Honda bis. Usar cinto de segurança nos carros também não é um habito comum, apesar da lei. Dentro do taxi (todos do modelo Santana), me preparava para colocar o cinto quando fui impedida pelo taxista. Depois de muitos gestos e linguagem corporal no melhor estilo Tarzan entendi que era melhor ficar sem cinto, pois esse iria sujar minha roupa. Contra fatos não há argumentos, fui sem cinto mesmo. Outro fato interessante acontece comigo sempre que preciso viajar. A mala não cabe no porta-mala do carro? Não tem problema, vamos de porta mala aberto mesmo!! Quando eu era criança, nos anos 90, andava em pé atrás do carro entre o banco do motorista e do passageiro e voltava da escola solta na carroceria da caminhonete com o vento batendo no rosto. O cenário aqui é esse, nostalgia pura. Outra semelhança com o Brasil da década de 90 é a falta de uma lei para coibir o uso do tabaco. Aqui ainda é permitido fumar em lugares fechados e infelizmente as pessoas fumam até mesmo dentro dos elevadores.

A moda nas ruas também é bastante diferente das passarelas ocidentais.  As chinesas gostam de ser chique, mas com conforto. No verão, vestidos bem femininos de tecido, normalmente acinturados e com saias rodadas, são a maior pedida. E nos pés? Tênis de ginástica coloridos! Outro fato inusitado e até engraçado é encontrar chineses fazendo ginástica de calça jeans e camisa social. Me deparo com isso diariamente na sala de musculação da academia. Já imaginou alguém correr uma maratona de crock? Isso mesmo, você leu direito. Aquele calçado de plástico. Depois as pessoas ainda ficam surpresas da China ter abocanhado a maioria das medalhas de ouro nas olimpíadas.  Se eles conseguem correr uma maratona inteira de crock, imagina de tênis! Se tornam imbatíveis.

Os hábitos alimentares também são muito diferentes entre os diversos países do globo. Acontece o mesmo com a China. Na Itália, por exemplo, serve-se entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. Os italianos não misturam salada, macarrão e bife no mesmo prato. Isso seria uma blasfêmia. No Brasil, ao contrário, gostamos mesmo é de comer arroz, feijão, bife e salada tudo junto, por último e separado somente a sobremesa. Aqui na china, eles não separam nem a sobremesa. É uma garfada (ou melhor, uma palitada) no arroz, uma na carne e outra no sorvete.

Mini galeria de fotos de Hefei:

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

2 comentários em “China, o choque cultural

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