O planeta vermelho

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Marte. Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Quando a civilização Egípcia se instalou às margens do Nilo,  Marte já era um velho conhecido.  A essa estrela que brilhava incansavelmente no céu, chamaram Her Descher,  que significa “O Vermelho”.  A coloração do planeta tem sido observada por várias civilizações ao longo da história e talvez por isso tanto os babilônios quanto os gregos o nomearam em homenagem ao deus da guerra Nergal e Ares, respectivamente. O nome a que hoje nos referimos ao quarto planeta a partir do Sol deriva do equivalente romano para o deus da guerra, Marte.

Antes do advento do telescópio, um dos maiores astrônomos da  época e que dedicou seu tempo e dinheiro para catalogar o movimento dos orbes celestes foi o nobre Tycho Brahe. As posições de Marte no céu foram então registradas com precisão de alguns minutos de arco.  Utilizando-se dos catálogos de Tycho, Johannes Kepler se debruçou por anos sobre o problema da órbita de Marte, que era a que mais se afastava da forma circular, quando comparadas as órbitas de Júpiter e Saturno.  Depois de muitas tentativas, Kepler finalmente resolve o problema do formato das órbitas:  os planetas se movem em elipses com o Sol em um dos focos. Esse conceito ficou conhecido como primeira lei de Kepler e foi publicado em 1609 no livro intitulado Uma  nova astronomia “baseada nas causas” ou uma “física dos céus” derivada das investigações dos movimentos da estrela Marte, fundada nas observações  do nobre Tycho Brahe.

A primeira pessoa a apontar um telescópio para as estrelas, o fez sobre o belo céu de Veneza. Galileu Galilei provavelmente observou Marte magnificado pela primeira vez entre 1608 e 1610, contudo as primeiras anotações acerca do planeta vermelho datam de 1636 e foram feitas pelo astrônomo italiano Francesco Fontana.

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Canais de Marte por Percival Lowell

A ideia de que Marte poderia habitar vida inteligente ficou muito tempo no imaginário do ser humano. O astrônomo Percival Lowell (o mesmo que acreditava na existência do nono planeta do sistema solar antes da descoberta de Plutão, veja o post sobre o Planeta-anão) foi o primeiro a especular sobre possíveis canais em Marte. Durante seus estudos, ele desenhou as marcas na superfície do planeta assim como ele as observava entre os anos de 1895 e 1908. A possível existência desses canais mexeu ainda mais com as fantasias populares. Especulava-se que os canais seriam uma tentativa dos marcianos de salvar seu planeta depois que suas vegetações haviam secado completamente. Apesar da agitação, a maioria dos astrônomos permaneceu cética.  Hoje sabe-se que superfície de Marte é bastante irregular e as observações de  Lowell não passaram de ilusões de ótica. Contudo em 1938, o episódio de uma radio novela intitulado  “A guerra dos mundos”, baseado no livro homônimo de Herbert George Wells causou um pequeno pânico na população de algumas cidades estadunidenses. Isso porque a transmissão desse episódio foi feita como um boletim de notícias que anunciava a invasão da Terra por alienígenas de Marte.

Atualmente sabe-se que Marte possui metade do diâmetro da Terra e apenas 11% da massa do nosso planeta. A atmosfera é composta principalmente de Dióxido de Carbono, com pequenas quantidades de Nitrogênio e Oxigênio, além de outros gases. A água é ainda mais escassa e representa aproximadamente 0,03% da atmosfera marciana. Imensas calotas polares de Dióxido de Carbono são formadas devido ao congelamento desse componente na atmosfera. A temperatura média registrada em Marte é de – 63 graus Celsius. A superfície de marte é acidentada com um grande numero de crateras e vulcões.

A hipótese de vida inteligente em Marte já foi descartada pela ciência, contudo ainda seria possível encontrar vida em sua forma primitiva. A presença de água possibilita a vida na forma na qual a conhecemos. Microorganismos capazes de viver em ambientes extremos na Terra  (sem incidência de luz solar, a altas temperaturas ou pressões, baixas quantidades de água, sem oxigênio, etc) poderiam ser capazes de sobreviver em ambientes extraterrestre ainda mais agressivos. E é na busca desses microorganismos que se concentra parte da exploração espacial em planetas e satélites no nosso Sistema solar.

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Rios de sal em Marte. Crédito: NASA/JPL/University of Arizona

As imagens da sonda MRO (do inglês, Mars Reconnaissance Orbiter) possibilitaram a detecção de sais minerais hidratados formando listras escurecidas em algumas montanhas de Marte. Esse fenômeno que era observado durante as estações mais quentes (na qual a temperatura pode chegar a -23 graus Celsius) desaparecia durante o rigoroso inverno marciano. Esses sais, chamados de percloratos, já se demonstraram capazes de manter a água em estado líquido mesmo em temperaturas extremamente baixas.  Os percloratos já tinham sido identificados em diferentes regiões na superfície de Marte, mas não em sua forma hidratada. Ao que tudo indica, rios de sal percorrem as montanhas marcianas no verão, possibilitando a existência de vida. No final das contas, Percival Lowell talvez tivesse uma parcela de razão apesar de seus dados terem sido pobres e o alvo ter sido outro.  Em todo caso, não há razões para pânico, nós que estamos invadindo Marte.

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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