Ciência e religião

A relação entre ciência e religião tem sido tumultuosa no decorrer da história ocidental. Algumas das grandes descobertas científicas foram, contudo, inspiradas pela fé ou lideradas por cientistas religiosos. Qual seria o verdadeiro conflito entre esses dois aspectos culturais dos seres humanos, sendo que ambos buscam o entendimento da natureza e o significado da vida? Antes de tentar responder a essa pergunta, é preciso primeiro definir ciência, religião e suas maiores diferenças, caso existam.

Vamos voltar nossa atenção para a cosmologia, a ciência que estuda a evolução e a estrutura do universo como um todo. Em 1915, Albert Einstein descreveu as leis da gravidade nas quais se baseia a cosmologia moderna. Mais tarde, ele considerou sua nova teoria como pano de fundo para o funcionamento do universo. Uma nova ciência nascia, e com ela novas e muitas teorias para descrever a evolução do cosmos começaram a surgir. Contudo, nenhuma evidência observacional que apoiasse ou refutasse qualquer um desses modelos de universo apareceria até o ano de 1965. Apesar de nessa época a cosmologia já ser considerada uma ciência, ela não era discutida com seriedade por aqueles que se consideravam “verdadeiros” cientistas. Então nos perguntamos: o que á ciência? É uma explicação de como a natureza funciona, sendo verdadeira ou não? Galileu Galilei nos ensinou, e hoje faz parte do senso comum, que uma teoria científica deve ser testada empiricamente.  Nossa crença em uma teoria não pode ser um ato de fé.  Podemos, então, assumir essa como a maior diferença entre ciência e religião? Entretanto, explicar os fenômenos naturais por meio de teorias empiricamente adequadas não significa que essas sejam as verdadeiras leis da natureza. O objetivo da ciência seria então produzir “teorias verdadeiras”? Como seria possível distinguir entre uma teoria verdadeira e teorias empiricamente equivalentes? O modelo do Big Bang, proposto inicialmente pelo padre católico Georges Lemaitre, é sustentado pela descoberta em 1965 de que o universo está imerso em radiação, chamada de radiação cósmica de fundo. De acordo com o modelo do Big Bang, considerado o modelo padrão da cosmologia, essa radiação é uma relíquia do universo primordial. O modelo cosmológico padrão tem um sucesso sem precedentes em explicar as observações. Mesmo assim, a natureza de 95% dos constituintes do universo continua sendo um mistério. A cosmologia, como ciência do século XXI, é baseada em uma teoria empiricamente adequada, porém com variáveis desconhecidas, que pode não ser a teoria final e verdadeira da natureza.

De acordo com estimativas publicadas pelo artigo de 2012 The Global Religious Landscape”, 83.7% da população mundial é afiliada a algum tipo de grupo religioso. Cristãos e muçulmanos somando mais da metade desse número. Essas religiões teístas acreditam na personificação do bem, pelo nome de Deus, que criou o universo e tudo nele, incluindo a nós mesmos, a quem devemos obediência. Existem, contudo, religiões nas quais a existência de Deus não é uma condição necessária. Qual é então a natureza da religião? Seria uma explicação para problemas não resolvidos na ciência, sempre nos limites do conhecimento humano, sendo verdades ou não? Na Grécia antiga, as forças da natureza que não podiam ser explicadas eram personificadas sob forma de deuses, a quem os gregos também deviam fidelidade. As crenças religiosas mudaram durante o percurso da história, da antiguidade até os tempos modernos. Os livros sagrados foram reinterpretados para se ajustar as descobertas científicas. Crenças religiosas são reflexos de uma cultura e de um tempo, baseadas na fé e não em evidências empíricas. As grandes contribuições para o entendimento do universo vieram de cientistas religiosos, incluindo Copérnico, Kepler, Galileu e Newton. A religião sem a ciência seria cega. A história recente mostra que as instituições religiosas tem apoiado o progresso cientifico, incluindo a igreja Católica que protagonizou batalhas sangrentas com a ciência no passado.

Em um mundo onde a maioria das pessoas tem algum tipo de vínculo religioso, e o progresso proporcionado pelo avanço da ciência na sociedade moderna é inquestionável, ambos, ciência e religião, devem coexistir. Elas podem coexistir? Estaria a cosmologia em conflito com a fé teísta? Ou seria a cosmologia uma maneira de entender a realidade, a qual os teístas conhecem pelo nome de Deus?

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Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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