Um prelúdio sobre o Irã

FullSizeRender 64A empolgação começou cedo, ainda nos preparativos para a viagem. Depois de muitas pesquisas sobre o street style das mulheres no Irã, tentei inutilmente montar looks para quase 12 dias. Poucas peças eram apropriadas para circular pelo país que foi um dos maiores impérios da antiguidade. Caso eu não quisesse fazer uma infinita sobreposição de roupas, que além de ficar cafona me mataria de calor, teria que ir às compras. No verão, a temperatura passa facilmente da casa dos 40 graus Celsius na região mais central do país, e minha missão de não derreter se mostrou infundada.

Há mais de 30 anos, o então governante, xá Reza Pahlevi, era duramente criticado pela forma autoritária que conduzia a política do país. Deu-se início uma revolução que culminaria, em 1979, no seu afastamento do poder e a ascensão do líder religioso Ruhollah Khomeini.  O que inicialmente parecia uma revolução democrática, transformou o país em um Estado teocrático no qual o governo deve submeter-se às normas da religião, nesse caso, o Islamismo. Novo líder político e religioso, o aiatolá Khomeini instituiria mudanças que, até hoje, afetam a vida dos iranianos.

O código de vestimenta do país proíbe o uso de bermudas e camisetas muito justas para os homens (claro, que não precisaria nem mencionar que camisetas regatas, tão utilizadas no Brasil, estão completamente fora de questão). No caso das mulheres,  roupas devem cobrir os braços (pelo menos 3/4) e as pernas.  Os quadris também não podem estar em evidência, podendo ser cobertos por longas parcas, cardigãs, coletes, casacos, ou a própria camisa oversized. Os cabelos precisam ser escondidos (mas nem tanto, as iranianas gozam de uma certa liberdade), para isso, o Hijab (véu). Sandálias são permitidas, mas se você estiver indo visitar uma mesquita, dê preferência para calçados que permitam o uso de meias. Você deverá tirar os sapatos para entrar, e pés descalços não são aconselhados.  Ao contrário do que possa parecer, e apesar de tantas restrições, nas ruas, notei que as mulheres estão, em sua maioria, bastante elegantes, bem vestidas e extremamente maquiadas, pelo menos nos grandes centros (isso, evidentemente, muda quando vamos para cidades menores e vilarejos). Além disso, unhas postiças bastante longas estão entre os acessórios cobiçados, e jóias, muitas jóias. Voltaremos ao tópico mulheres mais tarde…

De malas prontas, a aventura começa no aeroporto de Xangai. A companhia aérea Mahan faz voos diários para Teerã com duração de aproximadamente 10 horas. As aeronaves são antigas devido às sanções impostas pelos Estados Unidos, coisa que é facilmente notada já no embarque. Não espere tampouco filmes durante o percurso. Os televisores não são sequer ligados. Ao ser perguntado, um comissário de bordo me informou que eles não funcionavam. No lavabo ainda encontrei cinzeiros, o que me fez voltar no tempo. E se você esqueceu de tirar seu véu da mala, não se preocupe, eles te oferecerão um quando a aterrissagem estiver se aproximando.

Descendo no aeroporto internacional Imam (líder) Khomeini (sim, o mesmo da Revolução Islâmica), o cenário é outro. Logo no desembarque, diversas mulheres vestiam o tradicional Chador. Essa vestimenta que cobre todo o corpo feminino revelando somente o rosto é mais comum em países Árabes (vale lembrar que o Irã é Persa), e muitos desses turistas invadem o Irã todos os anos. Em cidades menores e mais tradicionais do Irã, o Chador ainda é visto com certa freqüência nas ruas, mas em grandes centros o Hijab é predominante. Depois que quase uma hora de espera, finalmente consegui o visto de entrada no país, que peguei diretamente no aeroporto. Eu não estava sozinha, e viajar com uma amiga iraniana me facilitou muito a vida.

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Pegaríamos um voo para Shiraz. A data do voo: 30/04/1395. O calendário Persa inicia-se na hégira (exílio) de Maomé de Meca a Medina no ano de 622 da era Cristã. Da mesma forma que no calendário gregoriano, o calendário Persa é composto de 365 dias divididos em 12 meses. Em Shiraz, onde a jornada, de fato, começa, me hospedei na casa da família da minha amiga onde pude vivenciar o dia a dia daquele povo de características tão diferentes da nossa. Durante esses dias, passamos também por Yazd e Esfahan numa viagem inesquecível, peculiar, e de muito aprendizado. Um povo hospitaleiro e caloroso, que apesar das diferenças, me recebeu de braços abertos. Eu só tenho a agradecer!

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Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

6 comentários em “Um prelúdio sobre o Irã

  1. Larissa quanto tempo!
    Sempre recebo seus posts e adoro lê-los.
    Ficava ansiosa se escreveria sobre o Irã após ver suas fotos no face.
    Adoro o jeito como descreve suas viagens.
    Abraços e ótimas aventuras é o que lhe desejo.

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