Road trip: Yazd

O carro corta a poeira que permanece suspensa durante praticamente todo o trajeto. Pela estrada, em meio ao deserto, o Sol transforma o mar de areia em espelho d’água. Encolhidos, viajamos seis pessoas onde originalmente caberiam somente cinco por quase 450 quilômetros entre Shiraz e Yazd. A palavra minimalismo provavelmente não existe no idioma Persa, e com o porta-malas abarrotado de malas e suprimentos parecíamos mesmo estar levando mantimentos para enfrentar o fim dos tempos totalmente prevenidos. De vez em quando, parávamos para tomar uma xícara de chá vermelho assim mesmo, na beira da estrada. Não, não parávamos em uma cafeteria, ou lanchonete. A garrafa térmica é um dos itens indispensáveis em qualquer passeio de carro. E nada de copos de plástico ou de papel. Seria uma deselegância. Um jogo de louça também é indispensável! Ali, no meio do deserto, com a temperatura beirando os 50 graus Celsius, várias camadas de roupas e hijab na cabeça, tomávamos chá quente nas nossas xícaras de porcelana e comíamos tâmaras secas…

A cidade de Yazd, localizada no centro do país, em pouca coisa lembra Shiraz. Considerada uma das cidades mais antigas do mundo, Yazd cativa exatamente por ser diferente. Diferente de todas as outras cidades que já visitei pelo mundo afora. A cidade velha parece um cenário de filme, onde a cor amarronzada do solo se confunde com os tijolos das casas. Uma mistura de barro e plantas proporciona temperaturas mais amenas no interior das baixas construções que dão vida ao centro histórico. Nesse tom monocromático, ruazinhas que mais parecem labirintos nos guiam por quase 5000 anos de história. Nessa estrutura tradicional, também se destaca um sistema de ventilação chamado Badgir, as torres de vento que permitem a circulação do ar e o consequente resfriamento no interior dos edifícios.

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Nos hospedamos no hotel museu Fahadan, localizado em uma antiga mansão familiar de 250 anos de idade. A beleza do lugar é indescritível, e notada há muito tempo quando ainda servia de escritório consular de países Europeus. Em frente ao hotel a prisão construída por Alexandre, o grande, enclausurava manifestantes Persas contrários ao seu domínio na região (veja o post sobre Persépolis).

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A Mesquita Jameh aparece como um portal azul em meio a paisagem ocre. Decorada com mosaicos datados de 1365 é uma das construções mais marcantes de Yazd. Com costumes mais tradicionais, é comum ver mulheres usando o Chador preto pelas ruas da cidade. Apesar de maioria muçulmana, engana-se quem pensa que o Islamismo é a única religião adotada no Irã. Yazd abriga o maior número de fiéis da antiga religião persa fundada no século VII a.C.: o zoroastrismo.

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Moinhos no museu da água

Visitamos o Museu da água: em tempo de seca quem tem um copo de água é rei. Ali vemos o esforço empregado para tentar obter o que a natureza caprichosa lhes negou. O sistema de qanats garante o fornecimento de água ainda hoje em regiões de clima árido. Acredita-se que esse sistema, no qual canais subterrâneos são cavados e a água redirecionada para coleta, tenha sido desenvolvido pelos próprios persas ainda no primeiro milênio antes de Cristo.

Mais uma paixão dos Iranianos, os jardins não podiam deixar de estar presentes. O  palácio Bagh-e Dolat Abad construído no século XVIII e circundado por um belo jardim servia de residência para o governador e surpreende pela enorme torre de vento. Uma outra paixão, e bem mais cara, é o ouro. Yazd é conhecida pelos iranianos como a capital desse nobre metal. Dizem que é o mais puro encontrado no Irã, e mulheres de todas as cidades viajam para lá em busca da preciosidade. O mercado do ouro é realmente impressionante. Peças maravilhosas feitas a mão, no maior estilo Persa, adornam vitrines do desejo. Pais de família também viajam para Yazd com intuito de comprar joias para as filhas de casamento marcado. É uma tradição. Não pude resistir, afinal quando terei oportunidade para visitar o Irã novamente? Feliz da vida ao escolher minha pulseira MARAVILHOSA fui censurada pela minha família iraniana adotiva: “ Você vai levar só uma? Não pode, é uma vergonha para seu marido. Vão pensar que ele não tem dinheiro.”  Realmente, nas ruas é impossível ver uma única pulserinha no braço das iranianas. As poucas partes desnudas do corpo são cobertas de dourado.

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Um pouco mais barato, mas não menos importante, a loja de doces tradicionais de Yazd era nossa parada obrigatória. Mas eles não são comprados em qualquer mercearia, mas em Haj Khalifeh Ali. Uma familia prepara os doces por 3 gerações nesse local. São realmente deliciosos e em sua maioria preparados utilizando nozes, pistache, e todos os tipos de oleaginosas.  Lembram do que eu tinha falado sobre minimalismo? Pois é, aplica-se mais uma vez… eu levando uma modesta caixinha e eles com caixas e mais caixas de doces. Para a família inteira, literalmente. Juntando o que já tínhamos, atafulhamos tudo no porta-malas do carro, e rumamos para Isfahan.  De tempos em tempos parávamos na estrada para tomar chá vermelho, mas agora acompanhado de doces semi derretidos da mais tradicional lojinha de Yazd.

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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