Irã: o epílogo

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Quatro gerações de mulheres iranianas

Entre Isfahan e Shiraz, Eghlid é uma pequena cidade de aproximadamente 45000 habitantes. Era dia de casamento, mas ninguém tinha pressa. No Irã, tranquilidade é palavra de ordem. Primeiro, passamos para visitar a matriarca da família que me recebeu muito feliz. Com mais de oitenta anos, ela, sentada na cama, abria os presentes que ganhava dos netos e bisnetos. Ao final, meio desapontada depois de receber lenços, louças e coisas para a casa, disse que queria mesmo era uma máquina fotográfica!

 

A noite caia quando chegamos na casa que iríamos passar o fim de semana. Meio sem saber o que vestir para um casamento iraniano, peguei um vestido de manga comprida na mala, coloquei uma legging por baixo e, claro, o hijab. Em tempo record estava pronta juntamente com todos os membros da família. Em cidades pequenas, os costumes muçulmanos são mais tradicionais e muitas das mulheres usavam o Chador, mesmo durante a celebração. No salão de festas, os homens não são permitidos. Maridos, filhos e pais, aguardavam a festa acabar numa sala separada. Assim como no casamento Cristão, mulheres esperavam ansiosas a entrada da noiva. Entraram juntos, de mãos dadas. O noivo, o único homem que aproveitaria a festa, estava sorridente. Teve música, dança e muita comida, como todo bom casamento.

De volta a casa, as mulheres da família tentavam conversar comigo, curiosas. A elas muito impressionou o fato de que do nosso lado do mundo nós poderíamos escolher o namorado, e até mesmo que tínhamos a escolha de não casar.  A dificuldade da vida das mulheres no Irã tornou-se evidente. Eu desconhecia alguns fatos da Constituição iraniana que atesta, por exemplo, que a vida de uma mulher vale metade da vida de um homem, inclusive no âmbito do direito penal. Apesar das mulheres poderem frequentar a faculdade, apenas aproximadamente 11% são empregadas. Nos dormitórios estudantis, o toque de recolher para elas acontece as seis da tarde. A tarefa diária de cuidar dos filhos, da casa e do marido consome a maior parte do tempo. Todas as mulheres que conheci eram bastante talentosas em várias facetas da vida doméstica. A comida feita sempre com esmero, deliciosa. Muitas delas, colhiam e secavam as frutas manualmente. Faziam o queijo, o iogurte, e a geléia consumida na casa. Eram habilidosas na  preparação de fullsizerender-91doces.Cozinhavam todo tipo de comida tradicional da região e do próprio Irã. Bordavam toalhas, decoravam a casa. A informação a respeito de como vivem as pessoas em outras partes do mundo me pareceu bastante restrita. Aquela é a vida delas. Não poderia ser diferente.  Conversamos por muitas horas, sentadas ali ao redor da grande toalha estendida no chão, e coberta de guloseimas irresistíveis. Muitas casas não possuem mesa de jantar com cadeiras. Para o meu desespero, as pessoas comem sentadas no chão, e eu não conseguia achar uma posição confortável sem apoio para as costas.

fullsizerender-89A fartura “à mesa” é umas das características mais marcantes de uma típica família no Irã. Arroz com frutas vermelhas e carneiro, o kebab. O pão, feito de forma tradicional nos enormes fornos nas padarias, já nos ganha pelo aroma delicioso.  Os derivados do leite vão muito além do queijo e do iogurte (que eles consomem como suco, temperado, normalmente salgado, batido com pepino, alho ou menta). A variedade de produtos é tamanha que não posso sequer enumerá-las.  A maioria, eu nunca tinha sequer visto. Nozes. Em Eghlid, árvores de nozes estão espalhadas por todos os cantos. Pela primeira vez, comi a noz fresca recém-colhida do pé. Pistache. Frutas secas: ameixas, figo, tâmaras (que também comi frescas e são espetaculares).  Não posso deixar de mencionar a cúrcuma. Ela está em tudo: no arroz e como sabor de sorvete.

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Uma viagem inesquecível e recordações para mais de uma vida. Coloque o Irã na sua lista de desejos.  As surpresas serão muitas e as histórias para contar, infinitas. Era hora de partir. Me despeço desse país fantástico de pessoas acolhedoras e queridas com o maior poeta Iraniano.

“Um dia, o sol admitiu:

Sou apenas uma sombra,

quisera poder mostrar-te a infinita incandescência

que lançou minha imagem brilhante.

Quisera poder mostrar-te, quando você se sentir só ou na escuridão,

a surpreendente luz do seu próprio ser.”

Hafez (1325-1390)

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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