Gramado: um chinês no Brasil

Nativa da China (e Japão), coincidentemente, ou não, as hortênsias dão nome a região da Serra Gaúcha para qual embarcamos em uma jornada estelar de quase 3 dias. Hefei – Pequim – Madrid – São Paulo – Porto Alegre – Gramado. Ufa! Toda a vontade de conhecer o Brasil quase se esvaiu diante dos pés inchados, das pernas dormentes e dos cochilos mal dormidos devido, entre outros fatores, ao solavanco da cabeça ao cair e ser lembrada que ainda é unida ao corpo pelo pescoço. Esse sim, sofre os maiores danos em viagens desse porte: cruzar o mundo numa caixa de sapato voadora. Era madrugada de segunda-feira, 10 de novembro de 2016, quando finalmente chegávamos em Gramado.

De olhos bem abertos (pelo menos o meu), apesar do cansaço ainda latente, estabeleci a minha primeira impressão do local, e foi ela mesma que ficou: a cidade é uma graça. A colonização mais recente, de 1913, deu-se por imigrantes italianos e alemães que vieram da Europa falida em busca de oportunidades no novo mundo. A arquitetura da cidade reflete essa colonização. Curiosamente, nosso turista chinês (de nome Wen) foi o primeiro a notar que as ruas da cidade não têm semáforos, o que implica que os motoristas respeitam sim as faixas de pedestres por lá. Em busca de natureza, afinal o Brasil é conhecido no exterior por toda sua exuberância natural, fomos guiados pelas cidades de Gramado e Canela e todas suas belezas. Excelente fotógrafo, boa gente e bem humorado (para quem quiser informações sobre ele é só pedir, super recomendo), nosso guia começou pelo começo: o Pórtico. Construído para dar boas vindas aos visitantes na entrada de Gramado, o portal, cercado de um belo jardim, e inaugurado em 1973, nos acolhe com todo seu aconchego. Seguindo em frente, fomos visitar onde os gramadenses passam suas tardes de verão. O parque do Lago Negro foi construído após um incêndio queimar a extensa mata que ocupava a região. Às margens do lago artificial, árvores importadas da Floresta negra da Alemanha lhe emprestam o nome e dão vida a uma paisagem magnífica composta de pinheiros e flores (azaleias ou hortênsias, dependendo da estação do ano), tudo arrematado por um céu azul felicidade. Essa cor de céu (que eu descrevo como azul felicidade) que nos acostumamos e esquecemos de apreciar arrematou também o coração do nosso chinês, acostumado ao céu cinza poluição das grandes cidades chinesas.

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Catedral de Pedra

E para adoçar ainda mais a vida, visitamos a primeira fábrica de chocolate artesanal do Brasil, a Prawer. Acompanhamos o processo de fabricação dessas delícias, além, é claro, de muita degustação. Munidos de sacolinhas cheias de energia, fomos visitar a Catedral de Pedra em Canela. Iniciada em 1953, a igreja foi toda revestida com pedra basalto, inclusive o piso, originando o nome tal como é conhecida. Tendo como padroeira Nossa Senhora de Lourdes, a Catedral de Pedra é um dos pontos turísticos mais visitados do Rio Grande do Sul. Não é para menos, com sua torre de 65 metros de altura e cercada por um jardim verdejante, a igreja é um verdadeiro cartão postal. Entre muitas primeiras vezes, essa também é a primeira vez de Wen dentro de uma igreja Católica. Uma viagem que para ele terá muitas histórias para contar.

Dos lugares que vistamos em nossa breve estadia e com o pouco tempo disponível entre uma palestra e outra (pois é, estávamos na cidade a trabalho), elegemos o Parque Estadual do Caracol como o local mais bonito e um must go da região. Logo na chegada, a recepção não poderia ser mais calorosa com um espetáculo dos fofíssimos quatis. A cascata despenca em queda livre por 131 metros através de rochas basálticas. A escadaria que leva a um mirante bem próximo da cascata estava fechada para reforma, mas, mesmo assim, aproveitamos a pequena trilha cercada pela vegetação fechada até a prainha do Parque do Caracol, berço da cascata . Ali, para a minha satisfação, pude ouvir de um chinês feliz e com sorriso no rosto: “Deus realmente é brasileiro”.

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Famintos, saímos de lá direto para um café colonial. Considerada uma refeição típica da região, é composta de uma mesa  farta de pães, frios, frituras, bolos, e muito mais.  Eu, particularmente, não gostei do modo como é servido. Ao invés de buffet (cada um se serve do que consegue comer), tudo é colocado na sua mesa ao mesmo tempo. Um desperdício inquestionável e inadmissível de comida todos os dias em todas as mesas. Eu não vi nenhum cliente se levantar depois de tudo ter sido consumido. Uma quantidade absurda de comida jogada fora. Eu, ainda estupefata, perguntei se poderia levar o que tinha sobrado (pois é humanamente impossível comer tudo o que é servido). A resposta foi não (eu deveria pagar a mais para levar alguma porção). Indignada, conversei com o gerente que alegou, sem maiores remorsos, que essa era a maneira tradicional de servir o café colonial. Tradições existem para serem quebradas. Devemos nos adequar aos dias atuais, e a nossa realidade, para que possamos viver de forma mais sustentável. Sejamos mais conscientes e menos “tradicionais”. Não é preciso embarcar para a China (um país onde a falta de alimento levou as pessoas a comerem o que estava disponível, insetos por exemplo) para vermos a fome. Basta simplesmente olhar para o lado.

img_3028Para encerrar o post de maneira mais amena e alegre, fizemos também uma viagem ao passado. Saindo de Bento Gonçalves embarcamos na Maria Fumaça até a cidade de Carlos Barbosa. São 23 quilômetros de percurso recheados de apresentações italianas e degustação de vinho.  A bordo do trem a vapor demoramos uma hora e meia. Ali, onde estávamos, no primeiro vagão que conserva os assentos originais do trem, foram filmadas algumas cenas do premiado filme brasileiro “O Quatrilho” de 1995. O tour chama-se uva e vinho e faz jus ao nome. Visitamos diversos vinhedos e vinícolas que nos ofereceram informações sobre o processo de fabricação do vinho na região e degustação dos mais variados rótulos. O Parque Temático Epopéia Italiana faz parte do roteiro e mostra um pouco da chegada dos imigrantes italianos ao Brasil. Digamos que seja uma visita interessante, e que acaba em pizza (?). Pizza não, acaba em mais vinho! A última parada é a cidade de Nova Petrópolis com visita ao Labirinto Verde no centro da Praça das Flores. O desafio é encontrar o centro do labirinto e depois conseguir sair dele. Nos rendeu boas risadas.

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

2 comentários em “Gramado: um chinês no Brasil

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