Boracay

A janela era pequena, de cinco dias inteiros, mas queríamos abri-la para o mar. Entre várias paragens, embarques, desembarques, decolagens, aterrissagens, e esperas o caminho para o paraíso tinha que se fazer viável. De taxi até a estação, de trem até Xangai, de metrô até o aeroporto, e finalmente de avião até Manila, capital das Filipinas. A pé até a nova sala de embarque que anunciava o voo para Caticlan, município de Malay na província de Aklan. Finalmente, o mar. Pela janelinha do avião comemoramos discretamente, mas sem remorsos o festival Ching Ming vivido com observância e respeito aos mortos pelo povo Chinês. Ao descer do avião fomos recebidos pelo sol que não víamos há dias, e pelo calor que pôde limpar o mofo do corpo acumulado nos muitos meses de inverno. De ônibus por 15 minutos percorremos a distância da pista de aterrissagem ao mini saguão para retirar as bagagens. De moto até o porto, de barco até Boracay.

Essa pequena ilha localizada a 315 quilômetros ao sul de Manila foi eleita a melhor ilha do mundo em 2012 por uma revista especializada em viagens e em 2014 subiu mais uma vez ao topo do podium. Não fomos os únicos com a idéia original de passar o feriado de finados longe das tumbas empoeiradas. Em altíssima temporada, e preços salgados, turistas chineses dispostos a gastar surgiam por todos os lados, inundando a ilha, e dando a impressão, não fosse pelas belas paisagens, de que ainda estávamos em Hefei. Ficamos hospedados numa localização privilegiada, próximos à estação 2 da famosa Praia Branca (White Beach, como é conhecida).  Poucos minutos de caminhada nos separavam do shopping a céu aberto dmall que dá acesso à praia. Mais do que lojas de lembrancinhas, roupas e acessórios o dmall abriga diversos bares e restaurantes que se ramificam ocupando quase toda a extensão da White beach, abrangendo também as estações 1 e 3. A areia branca e fininha inspirou o nome da praia mais movimentada da ilha. O mar de um azul esverdeado lembra o tão conhecido mar do Caribe (nunca fui, mas é o que dizem). Brincadeiras a parte, o cenário é realmente deslumbrante e faz jus a fama.

Seja qual for seu programa preferido à beira mar, você o encontrará em Boracay. Tudo foi desenvolvido para agradar tanto gregos quanto troianos. Ficar deitado tomando uma cerveja gelada (a local é a San Miguel, disponível em diversas versões sendo a de maçã verde a minha preferida), relaxar durante uma sessão de massagem, fazer mil e um passeios (aquáticos ou não),  se inscrever em aulas dos mais variados esportes (os mais famosos são o kite e o windsurf). Tudo isso é oferecido simultaneamente numa algazarra frenética por diversos guias turísticos toda vez que você pisa na areia. Gosta de praia movimentada com infraestrutura e onde tudo acontece? White Beach. Gosta de praia sossegada, mais em contato com a natureza? Bulabog Beach. Quer um visual de tirar o fôlego e ainda ter um certo conforto? Puka Beach.

Como já dizia o poeta 🤔, vamos por partes…  comece a jornada assistindo ao nascer do sol na Bulabog Beach, deve ser incrível. Nós tentamos por 4 dias, mas as nuvens não deixaram. Acorde cedo, bem cedo. Em março o raiar do dia acontece antes da 5:30. Apesar de muitos hotéis à beira mar, a praia é mais rústica, e prevalece os encantos da natureza por si só.  Não nos deparamos com nenhum vendedor ambulante, e os frequentadores mais assíduos são as crianças locais e os cachorros da vizinhança. Para quem tem tempo, é nessa praia que se concentram aprendizes de surfistas (tanto de kite quanto de wind). O vento sopra forte.

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A Praia Branca é a mais famosa e onde você pode fazer a maioria dos passeios aquáticos oferecidos. A vista é maravilhosa, as opções de restaurantes são inacreditáveis (voltarei a esse ponto mais tarde na narrativa), e é onde você pode assistir o pôr do sol da terra, sentado na sua cadeira de praia, da água, simplesmente de dentro do mar ou a bordo de um barco a vela, ou talvez em cima da prancha de standup paddle, ou do ar, do alto de um paraquedas colorido puxado por uma lancha. Apesar de termos feito o parasailing (indico, pois você consegue ter uma vista bem bacana lá de cima), escolhemos a primeira opção no único dia que as nuvens nos deram a grande honra de se dispersarem para que o rei sol pudesse se retirar no horizonte sob aplausos e muitas fotos, espalhando sua luz vermelho- alaranjada no céu, na Terra e no mar. E com o cair da noite, tudo se transforma.

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Saem as espreguiçadeiras, entram as mesas e cadeiras de jantar, os palcos, os dançarinos, e cantores. Ali mesmo, de pés descalços na areia fofa a noite se desenrola. São tantas opções que nós pedíamos a entrada em um restaurante, o prato principal em outro e a sobremesa comíamos ainda num terceiro. Se come muito bem em Boracay, de comida local à ocidental. Prepare-se para engordar. Entre restaurantes e pratos que valem a pena, listo agora os meus favoritos, todos ao longo da praia White Beach, estação 2. Se você é daqueles que gosta de experimentar e de fato absorver a cultura local através da culinária, comecemos pelo Ginataang Kalabaa: pedaços de moranga e vagem cozidos no leite de coco. Eu achei divino. O Ensaladang Talong também é uma boa pedida, mais refrescante, porém menos saboroso na minha opinião, constituído de beringela grelhada com tomates e cebolas cozidos no leite de coco. Para os mais aventureiros, um café da manhã de “responsa”: arroz glutinoso dentro de uma espécie de mingau de chocolate coberto por lascas de peixe frito (oi?). Isso mesmo, você não leu errado. Não é ruim, e acreditem se quiser,  a mistura excêntrica de ingredientes parece até combinar no fim das contas. O nome do prato? Champorado. Todos esses pratos comemos no restaurante chamado Hoy, Panga! Outro prato típico que experimentamos foi o Lechon com arroz, que nada mais é que leitão assado, no Jeepney stop (esse é o nome do restaurante), dessa vez dentro do dmall. O Chicken adobo nada mais é que frango com arroz, e não vale muito a pena por se parecer demais com nossa comida brasileira do dia a dia. Uma fruta: manga. Manga de entrada, manga no prato principal, manga na sobremesa, manga in natura, manga em cosméticos, manga, manga, manga…Coma de todas as formas que aparecer, são apetitosíssimas! Restaurante de comida ocidental estão por toda parte. Gostamos de todos que comemos com destaque para o Caruso (italiano), no qual comi uma massa com trufas MARAVILHOSA. Dentro do dmall, o Hobbit ganha pela criatividade. A comida é o tradicional hambúrguer com batata frita (que não comemos), na decoração, réplicas de quadros famosos, e o serviço… bem o nome do bar diz tudo. Todos os garçons e garçonetes são anões. Vale a pena dar uma passadinha, nem que seja para espiar e escutar um pouco de musica ao vivo. Ainda na seção gastronômica, fora da praia, no mercado dos peixes (nesse caso deve-se pegar um tuc-tuc, pois não é tão perto), a melhor lagosta da vida te espera. Eles só abrem para o almoço. Você escolhe o pescado na hora, fresco, entre os vários feirantes que exibem suas mercadorias. Tem de tudo. Você escolhe, compra, e o leva ainda vivo para as dezenas de restaurantes ao redor do mercadão (estão mais para barraquinhas). Surpreenda-se com o prato (positivamente) e com a conta depois (negativamente). Resumindo, uma deliciosa facada no coração. Contudo, considere que escolhemos a lagosta.

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De veleiro saímos da White Beach em direção a Puka beach. O passeio é delicioso e dura a manhã toda. Pode ser feito a dois ou em até oito pessoas. No meio do caminho pausa para um pouco de snorkeling nas águas incrivelmente transparentes do mar das Filipinas. O desembarque na Puka Beach também foi um deleite para os olhos. Considerada pelos locais como a praia mais bonita da região, informação confirmada humildemente por essa pessoa que vos escreve, é pouco frequentada, mas ainda possui uma certa infraestrutura (espreguiçadeiras, restaurantes e banheiros).  Se puder, passe o dia inteiro por lá e desfrute. Acredite, ficarão as lembranças e a vontade de voltar. Pouco conhecida e visitada por brasileiros, as Filipinas têm muito a oferecer, lugares belíssimos para explorar e um povo bastante simpático. Em uma palavra: exuberante.

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Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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