Vietnã II: Saigon

A passagem pela antiga Saigon seria relâmpago! Com dois dias inteiros para conhecer o máximo possível, eu me desdobrei para aproveitar a maior cidade do país. Rebatizada como o nome do revolucionário e presidente do Vietnã do Norte, a cidade de Ho Chi Minh virou o símbolo do fim da disputa entre o norte e o o sul que durou quase vinte anos. Tendo a guerra fria como pano de fundo, o governo comunista do norte era apoiado pela União Soviética e a China, enquanto o governo do sul contava com os Estados Unidos como aliados. Os comunistas, e a Frente Nacional de Libertação, conhecida popularmente como Viet Congs, travaram batalhas homéricas na tentativa de unificar o país, enquanto os aliados anti-comunistas buscavam evitar a qualquer custo o surgimento de mais uma nação vermelha. Em 1973, os Estados Unidos se retiram da guerra do Vietnã, possibilitado a ofensiva que culminou na queda de Saigon (capital do Sul) em 1975. Até hoje, a cidade respira o conflito, refletido por todos os lados, moldando  o turismo local.

Diferentemente de outras cidades da Ásia que conheci, Ho Chin Minh não é uma cidade segura. Assim como minha passagem por lá, relâmpago também foi o furto do meu iPad nos primeiros dez minutos de estadia. Tome cuidado, cartazes de alerta estão nos hotéis, nas agências de turismo, por toda parte. Meu conselho é que você saia na rua sem nenhum objeto de valor, pois os furtos são constantes, ousados e inevitáveis. Quando eu soube da situação, já era tarde demais. Mas não se engane, esse incidente não tirou o brilho da cidade, tampouco a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e simpáticas pelo caminho. Felizmente, a maioria não é culpada, e sim, vítima, como eu fui.

Antes da minha chegada, já tinha agendado dois passeios com uma agência de turismo muito recomendada internet a fora. Com um conceito diferente, as meninas do Xo tours, já ganharam milhares de fãs por todo o mundo, que não pouparam elogios em blogs pessoais e comentários na rede. Bem, me tornei uma dessas fãs e recomendo aos meus leitores que planejam ir a Ho Chin Minh. A primeira coisa que a maioria dos ocidentais pensa quando se fala de Ásia, é o trânsito caótico, aparentemente sem regras, cheio de motocicletas zanzando de um lado para o outro na iminência de um acidente, buzinas frenéticas, onde atravessar a rua pode ser classificado facilmente como um esporte radical. Essa idéia está bem próxima da realidade. Agora, já pensou em “turistar” por ai na garupa de uma dessas vespas? No Xo tours, meninas fofas vestidas com trajes típicos do país vão te guiar pelas ruas da cidade a bordo de motocicletas.  Eles oferecem vários tours no site. Se você não tem frescura, o food tour é o mais famoso e, sem dúvida, muito divertido.  E claro,  te possibilita comer as mais variadas delicias da região. Vale muito a pena. Além dos pratos mais exóticos para os corajosos (eu me arrisquei no sapinho e na carne de bode), comida com ingredientes mais tradicionais e bastante saborosa também estará a sua disposição. Que tal experimentar a tradicional comida de rua asiática (no caso, vietnamita), em diferentes bairros da cidade, passeando na garupa da moto, e de quebra, visitar alguns pontos não incluídos nos passeios tradicionais?  Prepare-se para esse jantar inesquecível!

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No dia seguinte de manhã, mais uma vez a bordo da vespa, visitei algumas atrações bem turísticas de Ho Chin Minh: o correio central, a Catedral de Notre Dame (eles têm uma também, mas não tão famosa como aquela dos colonizadores), o Palácio de Reunificação, o templo Chien Hau, o Tan Dinh Market, etc. Nas proximidades do  mercado, reparem na igreja cor de rosa pink na beira da pista… surreal (estávamos na moto, então não consegui fotografar). Durante o trajeto, o guia passa todas as informações e curiosidades, deixando o passeio ainda mais interessante. Em uma das paradas, vimos o local onde o monge Mahayana ateou fogo no próprio corpo em protesto contra a política religiosa do governo em 1963. O registro, uma das fotos mais icônicas do século XX, mostra as labaredas que resultaram na morte de Mahayana.

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Sem tempo, engoli um sanduíche às pressas e parti para o meu próximo (e último) compromisso. Localizados a quase 70 quilômetros de Saigon, os túneis Cu Chi são parte imperdível da visita ao Vietnã. Mais do que resquícios da guerra que devastou o país, os túneis construídos pelos Viet Congs, base da resistência vermelha no sul contra o ataque americano, nos dão uma lição de história e abre nossos olhos para os horrores do conflito. Escavados com pás, ou pelas próprias mãos, os túneis possuíam centenas de quilômetros de extensão. Uma malha subterrânea que abrigava dezenas de pessoas camufladas pela mata.

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As figuras foram retiradas do site Mundo Estranho

v_2Pequenos buracos disfarçados na superfície permitiam a entrada de oxigênio no subsolo. Debaixo da terra, as casas possuíam um sistema complexo, com cômodos, conectados por caminhos estreitíssimos e de difícil acesso. Devido a pequena compleição física dos vietnamitas os túneis tornavam-se quase impossíveis de explorar pelos robustos soldados americanos, e muitos morriam sem conseguir se deslocar ou achar uma saída. Se você não sofrer de claustrofobia (e não for muito grande), pode percorrer um dos túneis aberto ao público. Eu, com um corpo típico dos ratos vietnamitas (altura: 1,51 m, peso: 43 kg), já tive dificuldade em algumas partes do trajeto. Na maioria do tempo, consegui caminhar curvada, mas em alguns trechos tive que praticamente deitar para conseguir seguir em frente. O calor é escaldante, e claro, não há luz. Os ratos eram velozes, v_4conheciam o labirinto e lutavam pela sobrevivência. Dentre várias ramificações, apenas algumas chegavam à superfície, e muitas resultavam em becos sem saída ou minas. O sistema contava ainda com chaminés construídas centenas de metros de distância das cozinhas de forma que a fumaça criada no cozimento dos alimentos fosse desviada, e com isso, o alvo dos bombardeios.  Armadilhas rudimentares foram espalhadas por toda a região com intenção não de matar os soldados invasores, mas de feri-los gravemente, de forma que toda tropa se tornasse mais lenta e alvo dos Viet Congs. Como sempre acontece em lugares históricos, eu me transportei mentalmente para o passado e tive calafrios. Se você conseguir enxergar além do ponto turístico e das fotos banalizadas em cima dos tanques de guerra, também terá.

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Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

3 comentários em “Vietnã II: Saigon

    1. Oi, Saigon era o antigo nome da cidade de Ho Chi Minh (até 1976). Até hoje, contudo, é assim reconhecida informalmente. Quando ainda se chamava Saigon a cidade foi a capital da colônia francesa da Cochinchina. Sobre a etimologia da palavra (que é vietnamita), acredita-se que se refira a uma planta.

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