Curta divagação literária

Abaixo, um conto autoral. Opiniões sinceras são bem vindas.

Pecadores

– Padre, eu pequei. –  Não que o reverendo Erick não levasse a sério seu papel de intermediário entre nós,  pobres pecadores, e Deus, mas essa frase ouvida todos os dias após a missa das seis pelos gatos pingados que frequentavam a igreja de segunda à domingo não lhe inspirava mais tanta compaixão. As mesmas ladainhas resmungadas em seu ouvido de pessoas as quais ele reconhecia tanto pela voz como pela cadência da respiração. Após tantos anos de batina, o reverendo não mais se surpreendia com as mesmas confissões envergonhadas, arrependimentos sinceros, e as orações entoadas com fervor após condutas moralmente duvidosas, dia após dia, em um ciclo sem fim, de pessoas que não estavam dispostas a se entregar aos ensinamentos do Altíssimo, mas buscavam somente purgar-se por algumas horas. Às vezes, chegava a cochilar sem querer, enquanto os fiéis aguardavam a penitência que os inocentariam no pós morte, mas principalmente em vida, aliviando o peso de seus ombros curvados por faltas recorrentes. Apesar disso, nunca perdera a fé na humanidade, e cumpria com rigor todos os seus compromissos com a Santa Madre Igreja.

Naquele domingo, contudo, a primeira missa da manhã foi celebrada pelo padre da cidade vizinha, pois, permita-me caro leitor, um certo grau de intimidade ao chamar nosso ilustre mensageiro do Senhor pelo primeiro nome, Erick ardia em febre na cama paroquial. Mais tarde, agitado e ainda suando, ele reassumiu suas funções a tempo de entrar esbaforido no confessionário. A essa altura, o pobre padre já tinha decidido que deveria tomar uma drástica atitude sobre os eventos da noite anterior, responsáveis por deixa-lo prostrado por quase vinte e quatro horas. Esperava, com a pouca paciência que lhe restava, a fila pela absolvição diminuir. O último fiel se sentou do outro lado da cabine, encoberto pelo tecido preto que dava coragem ao anônimo pecador. Ele confessou, num sussurro:

– Matei uma pessoa. – A voz vacilante e o tom quase inaudível não impediram Erick de reconhecê-lo de imediato. O reverendo enxugou, com as mãos trêmulas, as gotículas de suor que brotavam em sua testa antes de retomar o fôlego. – Prossiga.

– Foi uma coisa de impulso. Não sei explicar. Apertei forte demais. Não queria matar, juro. Apertei, e ela ficou mole. – olhava para as mãos, como que para culpá-las por aquele sórdido desfecho. – Demorei para perceber que tinha parado de respirar.

Do outro lado, Erick, de olhos fechados, parecia reviver um pesadelo.  Era tarde da noite, quando o reverendo saiu à procura de ar fresco. Caminhadas fora de hora haviam virado um hábito comum desde que começou a exagerar na ingestão de vinho durante o jantar.  Zonzo e cambaleante, saiu pela porta dos fundos para evitar olhares curiosos de possíveis transeuntes. Beirava meia noite, e seu estado de espirito era condizente com seu estado de embriaguez. Bebia, culpava-se, bebia mais. Andava vagarosamente tentando recobrar a sobriedade nos arredores desertos da igreja. Escutou um barulho surdo. Olhou de um lado para o outro temendo ser descoberto, deu meia volta.  Tentou andar um pouco mais depressa e quase perdeu o equilíbrio. Conseguia enxergar pouca coisa devido à precária iluminação das calçadas. O terreno baldio logo depois do pátio tornava a situação ainda mais vergonhosa nas imediações da casa do Senhor. Mais um barulho, dessa vez ainda mais abafado. Deixou-se atrair. Comprimindo os olhos míopes tentava olhar além dos arbustos e das ervas daninhas, em vão. Pé ante pé,  camuflado pela escuridão, aproximava-se do terreno vazio. Avistou um vulto. Seu coração disparou. Escondeu-se o mais rápido que pôde atrás do pequeno pedaço de muro que bravamente resistia na sua função de separar a igreja da selva que se instalava pouco a pouco logo ali ao lado. Sentado no chão, achava que seu cérebro alcoolizado lhe pregava peças e que estava vendo coisas. Respirou profundamente e fez menção de levantar-se. Não podia ser pego ali em flagrante. Logo ele, um homem de Deus. Mas não era alucinação, uma pessoa se mexia com dificuldade no mato, estava encurvada e parecia arrastar alguma coisa. Erick observava imóvel.

– Quando dei por mim, quando percebi a burrada que eu tinha feito… ainda tentei reanimar ela. Mas ela não respirava. Fiquei desesperado, tinha que esconder em algum lugar. Ninguém podia ver o que eu tinha feito, seria uma tragédia. O senhor sabe, né? E eu tenho filhos, padre. Que Deus me perdoe! Meus meninos não podem ficar sozinhos no mundo. E se eles souberem? Eu cavei o mais fundo que pude, cavei por muito tempo. Não sei quanto. Joguei ela ali e tapei o buraco.– Um soluço tímido revelou que parecia chorar enquanto descrevia o crime.

Erick espiava a sombra que se aproximava perigosamente dele. De olhos arregalados viu que ela arrastava o que parecia ser outra pessoa. Ficou sóbrio pelo susto. Era tarde demais para sair dali. Paralisado, viu quando o homem começou a cavar. Não conseguia, contudo, reconhecê-lo. Tinha que fazer alguma coisa, mas não conseguia se mexer. O reverendo agora rezava agarrado ao terço que trazia em volta do pescoço. Pedia misericórdia a Deus e tentava não fazer nenhum ruído.  Empalideceu e quase desmaiou quando levantou mais uma vez a cabeça e viu que o homem olhava em sua direção. Aquele fantasma, que parecia ter saído das profundezas do inferno, ficou ali em pé fitando o muro onde logo atrás escondia-se Erick.

– Tenho certeza que tinha mais alguém ali. Não sei se é paranoia minha. Eu matei a mãe dos meus filhos, padre, e estou convencido que alguém viu. – Os soluços agora ficaram mais altos. O homem cobriu as faces com as mãos. – O que eu faço? –  A  pergunta não era destinada a Erick, que a essa altura sentia o sangue latejar nas têmporas.

– Meu filho, Deus perdoa quem de fato se arrepende. A maneira de mostrar seu arrependimento perante Jesus Cristo é se entregando à polícia.

– Impossível! Tem que haver outro jeito, tem que haver! Eu tenho filhos, padre. Eles não podem ficar órfãos.  O senhor não entende, não tem família. Eu tenho que tirar o corpo de lá. E quando chover? – Sucedeu-se uma longa pausa. – Me desculpe, eu tô muito nervoso. O senhor tem razão, vou procurar a polícia. Amanhã. Hoje não. Amanhã. Tenho que ir agora, padre. – E o homem precipitou-se para a porta da igreja quase correndo sem esperar sua sentença.

Erick observava pálido enquanto o diácono Filipe se afastava desnorteado. Filipe sabia que o pároco estivera o tempo todo abaixado atrás do muro nas imediações da igreja. Erick, que antes desconfiava ter sido visto, agora tinha certeza de, não somente, ter sido visto, mas reconhecido por Filipe. De volta aos seus aposentos, o reverendo vislumbrou o vinho sobre a cômoda, se serviu de uma taça e apagou deitado no tapete.

O despertador tocou cedo demais. A cabeça de Erick latejava no ritmo do relógio. Eram quatro da manhã. Para sua infelicidade, ele ainda se lembrava do que presenciara há duas noites, e do que ouvira no dia anterior. Preparava-se como de costume para o ofício de Laudes que há meses celebrava com a boca de ressaca:

– Glória a Deus nas alturas,

   E paz na Terra aos homens por ele amados

Encheu o pulmão de ar, levantou os olhos para cima como se fitasse o límpido céu azul, procurando Deus na sua infinita misericórdia:

Vós que tirais o pecado do mundo,

   tende piedade de nós.

   Vós que tirais o pecado do mundo,

   acolhei a nossa súplica.

   Vós, que estais à direita do Pai,

   tende piedade de nós.

Seus olhos marejados cruzaram o olhar de Filipe várias vezes durante a liturgia. O segredo despejado durante a confissão os tornavam indissociáveis. Erick não era mais apenas testemunha de um crime, sentia-se cúmplice. Os únicos cristãos presentes na igreja antes do raiar do sol, sentavam-se na primeira fila. Os filhos do diácono enxugavam as lágrimas pela mãe desaparecida há dois dias. Ao fim da celebração, Erick aproximou-se dos meninos que rezavam com fé pelo retorno de Marta ao lar, sem saberem que ela jazia pacificamente no terreno ao lado. O padre tentou consolá-los como pôde, mas não conseguiu dar esperanças falsas às duas pobres crianças ajoelhadas com as mãozinhas em prece. Filipe continuava a observá-lo de cima do altar. Erick sentia sua nuca queimar. O padre não teve coragem de se virar e de cabeça baixa seguiu para a sacristia. Escondido na penumbra, tirou da batina um pequeno cantil. Já anestesiado, continuou as celebrações daquela segunda feira abafada.

O crepúsculo coloria o horizonte de vermelho enquanto os sinos anunciavam a Hora do Angelus. Nesse dia, o padre não pediu perdão pelos seus pecados. Envergonhava-se pelas suas fraquezas mais do nunca. O vício estava fora de controle. Sua cruz já pesava nas costas desde a aurora. A essa hora, as pernas cambaleantes mal conseguiam dissimular o peso que carregava sobre os ombros. Com a alma consumida pelo desespero, trancou-se no confessionário e chorou em silêncio. Perdido em pensamentos, não escutou quando alguém se sentou do outro lado da cabine.

– Padre, sei que está aí. Preciso falar com o senhor… – e foi interrompido por Erick que, surpreendido pelo visitante, tossiu tentando clarear a voz:

– Perdão, o horário de confissões ainda não começou.– disse atordoado sem reconhecer o locutor.

– Sou eu, padre. Não tive coragem de me entregar. Os meninos tão muito abalados. Dei queixa do desaparecimento. Não teve jeito. Vão procurar. Daqui a pouco eles descobrem.

– Para obter a o perdão Divino, o arrependimento demonstrado através do seu ato de coragem em se entregar a polícia é primordial.  Para que Ele lhe conceda a paz de espírito e guarde seus filhos. Entregue-se pela misericórdia do Senhor. Faça da justiça dos homens seu caminho de purificação diante do Altíssimo. Esse é o primeiro passo para sua salvação.

Foram interrompidos pela sirene da viatura. Sem se fazerem de rogados, dois policiais entraram na igreja com seus coturnos sujos de terra. Filipe, com um ar mais fantasmagórico que na noite do crime,  se levantou tropeçando nas próprias pernas. Sem saber direito como agir, adiantou-se para receber os agentes. Erick sentiu uma onda de alívio:  “encontraram o corpo.” Foi também ao encontro  dos policiais e  alcançou Filipe na soleira da porta, enquanto o policial mais alto, ajoelhado, fazia o sinal do cruz.  Ambos fizeram uma pequena reverência aos clérigos antes do policial de menor estatura começar em tom grave:

– Boa noite, senhores, desculpem a invasão, mas recebemos uma denúncia anônima. Um possível crime nas imediações da igreja.

A visão de Erick escureceu e por pouco ele não caiu espatifado. Agarrou-se como pôde nos bancos, mas os braços também fraquejaram. Conseguiu enfim sentar-se e aos poucos recobrava as forças, mas não conseguia mais ouvir o que falavam ao seu redor. Via apenas que movimentavam os lábios e ajudavam-no como podiam. As lacunas na sua memória foram preenchidas por fotografias espaçadas, mas que ele sabia o significado. Acostumava-se, aos poucos, a não ser mais dono dos instantes que construíam sua vida. Lembrava-se vagamente de se esconder no quarto momentos antes de voltar à igreja para o toque das Ave-Marias. Perambulava com o telefone celular nas mãos. “O que foi que eu fiz?” Voltou a si, olhou ao redor. Todos pareciam preocupados, mas Filipe fitava-o com curiosidade.

– Tudo bem, tudo bem. Foi uma pequena indisposição. Deve ser o calor. – O padre já se preparava para levantar a fim de demonstrar aos presentes que estava em perfeito estado de saúde. – Os senhores iam dizendo…

– Bem, recebemos um chamado. A denúncia foi bem específica. Estamos averiguando. Me desculpe, padre, mas gostaríamos de dar uma olhadinha na igreja. Até para garantir a segurança dos senhores. – Caminharam todos em silêncio. Através dos vitrais piscavam luzes avermelhadas,  mas dessa vez silenciosas. Escurecia.  Nada de suspeito na igreja. Saíram pela porta dos fundos. Filipe apontou na direção do terreno.

– O que aconteceu?

– A denúncia que recebemos apontou para esse terreno. Não me surpreende, com esse breu que faz aqui de noite. Sem contar a altura do mato… um bom local pra desovar um defunto. Perdão padre. Demarcamos a área, não se preocupem. Meu amigo aqui e eu vamos ficar de vigília, caso algum sem vergonha dê as caras por aqui.

O outro concordou com a cabeça, e instintivamente buscou a arma na cintura com mão.

– Reparamos que a terra foi revirada. Mas não dá pra ver nada. Amanhã esmiuçamos tudo. – Mais um vez o agente faz o sinal da cruz antes de se virar e caminhar em direção à viatura com seu colega baixinho.

Ninguém realmente dormiu nessa noite. O padre revirava na cama tentando aplacar a insônia e a vontade de beber. O diácono voltara para casa onde passou a madrugada debruçado na janela. Os guardas, entre uma conversa e outra, revezaram um cochilo despreocupado dentro da viatura.

Os louvores da manhã foram feitos em completo estado de agitação interna pelos dois clérigos. Os minutos pareciam não respeitar o fluxo natural do tempo. Tanto o padre quanto o diácono tentavam ser discretos, mas passavam ostensivamente próximos às janelas. Também caminhavam mais do que o de costume pelo jardim. Um, rezando para que o corpo fosse encontrado, o outro, esperando o milagre de não ser descoberto. Após o encerramento da Sexta, e com o sol brilhando no zênite, um terceiro policial aproximou-se da igreja.

– Oi Padre, tudo bem? – Estendeu a mão para cumprimentá-lo.  – O terreno já está liberado. Não encontramos nada. Alarme falso. – Ia já longe quando se virou e gritou – Se ver alguma coisa suspeita é só chamar. Passar bem.

Erick atordoado viu o Diácono observando a cena.  Apesar de estar completamente sóbrio, a cabeça do padre zunia. Elevou os olhos ao céu e quando abaixou a cabeça Felipe não estava mais lá. Perplexo, abriu o cantil.

Nas Vésperas, nem sinal de Filipe. Devido ao estado de torpor, sentia-se aliviado com o desaparecimento oportuno do diácono, e entoava os cânticos de agradecimento pelo dia que findava com o clamor habitual. Contudo, as pessoas ao redor, inclusive os poucos fiéis que acompanhavam o louvor, notaram o olhar perdido do padre. Erick se arrastou devagarinho para o quarto ao fim das celebrações. Nada de confissões naquele dia. Minutos depois, duas batidas e a porta se abre. Filipe entra.

– Erick? Me escuta? – O tronco do padre sentado na beirada da cama tenta se equilibrar, e balança para frente e para trás. Ele levanta cabeça e reconhece Filipe.

– Me perdoe padre, mas culpa a foi sua. Sábado não é dia de exagerar no vinho, lembra? Tinha que ter ficado quietinho, tinha que ter ido para a cama cedo. Domingo a igreja é sempre cheia. –Sacudiu o corpo flácido de Erick. – Você vai se lembrar disso amanhã, hein? – Filipe começou a andar em círculos pelo cubículo com as mão entrelaçadas nas costas.

– Eu te vi lá escondido atrás do muro. Fiquei desesperado. Pensei a noite toda, não queria te envolver nisso. Era para você tá na cama dormindo caramba. Tinha que ter colaborado padre, mas que droga. Você não tem vergonha não? Olha o seu estado. – Os olhos semi cerrados de Erick não revelavam se existia ainda algum grau de consciência no grande nevoeiro que permeava sua mente. Filipe continuou o que parecia ser mais um monólogo confessional:

– O melhor jeito que encontrei de te deixar quieto foi te prendendo no sigilo da confissão. Mas afinal, padre, quem terá feito aquela denúncia anônima? – O diácono coçou a cabeça com um ar irônico, e completou. – Vou deixá-lo descansar.

Com uma força divina, um único golpe desferido. Os olhos febris revelavam um coração que ardia como chama, inflamado pelo álcool. Nas mãos, a garrafa partida refletia apenas um esboço do pobre padre. O líquido vermelho, vivo, escorria por entre seus dedos, morrendo no assoalho branco transmutado em uma poça de negrume espessa e pegajosa.  Envergonhado pelos seus pecados e por aqueles dos seus semelhantes, Erick observava aquele rosto tão familiar agora congelado em feições distorcidas pela agonia. O diácono descansava num sono sem sonhos. Ao fundo, o tilintar das lágrimas no telhado embalariam essa madrugada infindável.

Larissa Santos

Escrito por

Nascida na capital federal, morei nos EUA, Itália e atualmente me encontro no país mais populoso do mundo. Isso mesmo, estou morando na China, mais precisamente na cidade de Hefei. Sinta-se a vontade para procurar essa pequena cidade (para os parâmetros chineses) de mais de 7 milhões de habitantes no mapa. Sou formada em Física pela Universidade de Brasília e PhD em astrofísica pela universidade de Roma. Sempre ávida por dividir conhecimento, não somente no campo das ciências, mas também as minhas experiências pessoais , preferências literárias, etc. O leque é muito grande, então por simplicidade, digamos que gosto de debater sobre tudo e sobre nada, sobre qualquer coisa der na telha.

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